Na Minha Vespa

© Coleção Equilíbrio em Duas Rodas (2021)
Livro: Um Motoqueiro Existencialista

NA MINHA VESPA
Fábio Magnani
[publicado originalmente julho de 2011]

Cheguei aos meus 200 livros de moto! Bem, tinha que ser um especial. Algum que falasse sobre a vida, a arte e as motos. Melhor ainda, talvez um livro que falasse sobre o deleite da moto na arte de viver. Na procura, eu liguei uma motinha na cabeça para percorrer minha biblioteca, que é de tamanho médio para os dias de hoje. Acho que tem uns 1200 livros ao todo. Parece pouco, sim, mas, mesmo que eu leia um livro por semana, toda semana, levarei mais de 20 anos para conhecer tudo aquilo. Perfeito, ninguém aqui está com pressa.

Tento trazer o mundo para a minha biblioteca. Como escrever em mandarim, a viagem do Beagle de Darwin, a guerra do fim do mundo na nossa Canudos, as histórias completas do oeste de Elmore Leonard, Fitzgerald, Hemingway, Camus, Einsten explicando sua relatividade para os ignorantes, Faraday mostrando como funciona uma vela, sistemas de segurança digital, a história da descoberta do DNA, a arte do ataque no xadrez, ensaios sobre a anarquia, como assistir a um filme, arte moderna, a bíblia dos cafetões, técnicas para abrir cofres, formação acadêmica de verdade sem fazer universidade, como desenhar o que se vê, motores diesel, energia solar, como atingir o estado zen no arco e flecha… e por aí vai. Posso ser condenado por ser raso, mas não por falta de variedade.

Lá no canto esquerdo da minha estante, na parte de cima, estão os tais 200 livros de moto. Também não pecam pela homogeneidade. Tem livro de história, de chassis, de lesbianismo, de crime, de guerra, de filme, de filosofia, de motor, de viagem, de mecânica, de cultura, de foto, de ficção, de indústria e de tudo o mais que possa ter qualquer coisa a ver com moto.

Rodando por aquela região com minha motinha mental, procurei que livro podia ser esse para curtir “o deleite da moto na arte de viver”. Por alguma razão, ao mesmo tempo inevitável e incompreensível, achei a inspiração para o novo livro assim que cheguei na vilazinha italiana que fica ali ao lado das grandes paixões românticas. Essa vila é como chamo o punhado de livros que tenho sobre Vespas, que fica no meio da estante de livros de moto que formam o coração da minha biblioteca. É uma coleção dentro de uma coleção dentro de uma coleção.

O que mais pode significar a experiência de viver de moto do que a imagem de uma Vespa rodando pelas estradas da Itália? Ao contrário do culto à violência e ao militarismo dos motoclubes, as Vespas sempre significaram a inteligência e a liberdade. Saí então à procura de mais um livro sobre Vespas para ser o meu 200. Tinha que ter uma pin-up e uma Vespa na capa, um monte de fotos dentro, falar sobre as Vespas de um ponto de vista cultural e ser leitura leve. Não foi difícil achar: On My Vespa – Italy on the Move. Comprei na hora.

O livro é pequeno, com 150 páginas de papel fosco gostoso de olhar e tatear. Vem com 85 fotos, comenta mais de 100 filmes em que aparecem as Vespas, 30 referências para livros e outras várias para artigos em revistas, história, design e biografias. Uma grande aquisição para minha pequena coleção de livros de Vespas, que já tinha Eating Up Italy: Voyages on a Vespa, I See By My Outfit (esse não é com Vespa, mas como são duas scooters, valem por uma), Vroom with a View: In Search of Italy’s Dolce Vita on a ’61 Vespa, Mods and Rockers, Vespa: Style in Motion e Spotted in France: A Dog’s Life…On the Road.

Por ser uma ocasião especial – meu livro de moto 200! – resolvi escrever um texto um pouco diferente. Ao invés de pesquisar bastante antes, montar uma estrutura e só depois desenvolver o texto, resolvi deixar a minha motinha mental perambular por onde ela quisesse. A primeira parada foi escolher um vídeo para ver umas fotos de Vespas e ragazze. Para ficar bem no clima, tinha que ter fundo musical italiano. O primeiro vídeo que apareceu no YouTube quando digitei “vespa pin up” foi Girls & Vespas, que prometia em sua descrição um vídeo sexy estilo retrô, com um monte de garotas. Dei sorte nas fotos que apareceram no vídeo. Cada mulher mais bonita que a outra. Legal que não eram vulgares, artificiais ou comerciais, como as siliconadas das fotos de moto de hoje em dia. Talvez passassem isso na época, não sei, mas tenho a certeza que agora passam a impressão de liberdade, autenticidade e inteligência. As propagandas da Vespa sempre tentavam mostrar isso: beleza, alegria e independência. Mas vamos deixar a sociologia barata de lado e aproveitar.

Também acertei na música. Veio uma italiana, Guarda Come Dondolo, de 1962. Não é uma letra purista, nacionalista e nostálgica. Ao invés de falar bem de alguma coisa da Itália, a letra fala do twist americano que fazia sucesso na época. Isso me lembra um pouco os descendentes de italianos, como eu, com quem convivi no interior de São Paulo quando era criança. Talvez por não termos tido muita educação, ou então por termos nascido de descendentes de fugitivos da fome na Itália, não tínhamos muito medo de absorver a cultura dos outros, fazendo uma mistureba e recriando tudo. Ninguém ficava idolatrando o passado ou servindo outras terras.

Também me lembrei do filme O Talentoso Ripley. Nada mais natural. Eles andam de Vespa, o filme se passa na Itália, há uma performance inesquecível de uma música italiana e o livro que deu origem ao filme é de uma das minhas autoras prediletas, Patricia Highsmith. Tenho sete livros dela. Perturbadora. Nada mais diferente do que passear de Vespa na Itália, mas vamos em frente. Quando se sai de viagem, ninguém sabe exatamente por onde se vai passar.

Digitando “ripley soundtrack” no Google e depois apertando no primeiro link, acabei chegando na Amazon. Logo a primeira música era essa que eu estava procurando que aparece no filme do Ripley: Tu Vuo’ Fa’ L’americano, de 1956. Por coincidência, embora uma bruxa amiga minha insista que não existam coincidências, chegamos a outra música italiana com o mesmo tema. Agora é de um italiano metido a americano. Achei várias versões no Youtube. A primeira é da época do lançamento. A segunda com os personagens do filme cantando a música em um barzinho na Itália. Tudo conforme o planejado, mas encontrar a terceira versão foi como achar uma moeda no chão quando você está sem dinheiro para comprar cigarro: um trecho do filme Started in Naples, em que Sophia Loren canta essa música, só que agora em uma tradução para o inglês. Quantas curvas, quanto rebolado, quanta carne… estou mais uma vez apaixonado.

Assim chegamos ao final da viagem do meu livro 200. Não teve um grande clímax, ao contrário dos livros e dos filmes. Mas foi como uma viagem de moto de verdade. A cada momento escolhemos o caminho que parecia mais legal. Isso às vezes nos mete em encrencas, às vezes nos joga presentes no colo e, às vezes, nos leva exatamente para onde o destino nos havia ordenado. Bem, mais uma vez provado que, por mais que possa não parecer, escrever é muito parecido com viajar, a arte é muito parecida com a vida.

Não desisti ainda de procurar o desfecho deste texto. Comecei com garotas e Vespas, quero terminar com mulheres e duas rodas. Tentei achar por todo lugar uma foto da Sophia Loren andando em uma scooter, algo que dizem que existe mas que nunca consegui encontrar. Tranquilo, pois assim como na vida, muitas vezes você encontra algo muito melhor do que procurava. Não tinha a Vespa, mas encontrei a minha paixão Sophia Loren andando de bicicleta, toda linda de cabelo comprido solto, pele bronzeada e um olhar de quem sabe para onde o guidão deve estar virado.

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