A Garota e o Selvagem

© Coleção Equilíbrio em Duas Rodas (2021)
Livro: Um Motoqueiro Existencialista

A GAROTA E O SELVAGEM
Fábio Magnani
[publicado originalmente julho de 2011]

Os três filmes sagrados do motoqueirismo são O Selvagem (The Wild One, 1953), Sem Destino (Easy Rider, 1969) e o documentário Num Domingo Qualquer (On Any Sunday, 1971). Cada um deles define a imagem de um tipo de motoqueiro: o membro de motoclube, o viajante sem rumo e o esportista. Como um bom ateu, eu não sou muito ligado a nada sagrado. Devo confessar que tenho até certa aversão. Então, seja por independência ou por tola rebeldia, meus filmes de moto preferidos são outros. Entre eles estão A Garota da Motocicleta (Girl on a Motorcycle, 1968) e O Selvagem da Motocicleta (Rumble Fish, 1983).

A Garota da Motocicleta é baseado no livro La Motocyclette, escrito por André Pieyre de Mandiargues e publicado em 1963. A versão que eu li foi uma tradução para o inglês, The Motorcycle. Fiquei sabendo do filme enquanto folheava os livros da minha estante. A estória toda se passa em algumas horas, enquanto Rebecca, uma jovem casada há poucos meses, percorre 120 km de moto para encontrar o seu amante na Alemanha. A sexualidade é muito forte no livro. Para começar, Rebecca está vestida apenas com um macacão de couro. Esse fato fez os americanos, de forma sensacionalista, chamarem o filme de Naked Under Leather (Pelada Sob o Couro). Mas, ao contrário do que o título indica, não há vulgaridade alguma. A moto, que foi dada pelo amante como presente de casamento, serve como substituta para o contato físico nos momentos em que não podem estar juntos. Mas também representa a fuga de um casamento opressor e a celebração do movimento incessante da vida. Na minha opinião, esse é o livro/filme que chegou mais perto de uma descrição do que se sente sobre uma moto, como é o contato com o vento, a sensação da velocidade, a vibração do motor e como a mente viaja para as mais loucas paragens. O filme é psicodélico, antecipando em um ano o que seria depois mostrado no lendário filme Sem Destino. Durante o percurso, Rebecca vai lembrando dos últimos meses: como encontrou o seu amante na livraria do seu pai, as experiências sexuais, o aprendizado de como andar de moto e a constatação de que tinha o direito à liberdade e à vida. As páginas também descrevem as ultrapassagens, as frenagens, as curvas, o clima, as mudanças de humor, os perigos e as alegrias que se tem na estrada.

Outro filme entre os meus preferidos, O Selvagem da Motocicleta, foi dirigido por Francis Ford Coppola, em 1983. Tem um monte de atores famosos, como Matt Dillon, Mickey Rourke, Dennis Hopper, Nicolas Cage e Laurence Fishburne. Também é baseado em um livro, Rumble Fish, de S. E. Hinton, que foi publicado primeiro como um texto de revista em 1968, quando a autora tinha apenas 20 anos, e depois foi expandido como livro em 1975. Legal que a autora do livro foi co-autora do roteiro do filme e até fez uma ponta. Ela usava as iniciais S. E. desde que tinha ficado famosa, aos 16 anos, para esconder que era mulher. Afinal, quem daria bola para uma menina que escrevia sobre gangues e motos?

Eu descobri O Selvagem da Motocicleta pelo mais simples acaso. No final da década de 80, eu morava em Florianópolis. Naquela época ainda existiam vários cinemas no centro. Como não tínhamos televisão na nossa casa de estudantes universitários, quando eu não estava rodando de bicicleta, tinha o costume de perambular pelas ruas da cidade, depois comprava uma graphic novel na banca da Rua Tiradentes e entrava em algum cinema. Quando vi o nome O Selvagem da Motocicleta no cartaz, pensei que era um filme de ação, então não pensei duas vezes antes de pagar a entrada. Mas o filme era completamente diferente do que eu esperava. Todo em preto e branco, com jogo de sombras, visual esfumaçado e trilha sonora experimental. Muito legal. O personagem principal era Rusty James (Matt Dillon), um adolescente que idolatrava o irmão mais velho, o Garoto da Motocicleta (Mickey Rourke), um jovem que os outros não conseguiam rotular, nem como gênio, nem como bandido, nem como louco, nem como santo. O Garoto da Motocicleta era uma mistura de traços aparentemente irreconciliáveis. Era um intelectual amante de livros, falava com voz calma e era insuperável na sinuca. Mas também era extremamente violento nas brigas, roubava motocicletas ao seu bel-prazer e não se apegava a ninguém. Essa coexistência de características diferentes fazia com que as pessoas o temessem. O Garoto da Motocicleta era como um forasteiro, um rei no exílio, belo e maldito. Rumble Fish, o título do livro, é como é chamado o peixe de briga em inglês, aquele peixe majestoso que não pode ser colocado junto com outros no aquário, se não brigam até morrer. Isso é usado como símbolo da situação dos garotos. No filme, que é em preto e branco, os peixes são mostrados em cores, para mostrar a fascinação que o Garoto da Motocicleta tinha por eles. Ele pensava que, assim como ele, eles não brigariam se estivessem em liberdade, soltos em um rio.

Os dois livros têm muito em comum, como o fato de suas adaptações cinematográficas serem bastante fiéis. Os dois foram escritos na década de 60. Mostraram os motoqueiros como indivíduos independentes e livres, contrariando a visão dominante da época, de que todos os motoqueiros eram membros de motoclubes. Outra coincidência é que Rebecca é a Garota da Motocicleta, enquanto o irmão de Rusty James é o Garoto da Motocicleta. Nos dois livros, os personagens principais (Rusty James e Rebecca) idolatram a uma outra pessoa, ao mesmo tempo que se rebelam contra todo o resto da sociedade. Também, nos dois casos os motoqueiros são mostrados como pessoas refratárias a rótulos, que amam ao mesmo tempo livros e motos, o mundo intelectual e o carnal, a independência e a lealdade, o amor e a violência, a vida e a morte.

Mas os livros também têm diferenças marcantes. O Selvagem da Motocicleta, embora escrito por uma mulher, é um livro cheio de testosterona, com violência e obstinação. É escrito para jovens, em primeira pessoa, com linguagem simples e direta. É um livro rápido e tenso, como o roubo de uma moto. Já A Garota da Motocicleta, que foi escrito por um homem, é encharcado de estrógeno, com paixão pelos detalhes e apego incondicional ao amor. É leitura calma, como cruzar a Europa na Harley-Davidson de Rebecca.

Os filmes sagrados que eu comentei lá em cima acabaram rotulando os motoqueiros. Para eles, ou você é um biker, ou um rider, ou um trilheiro, ou um piloto de velocidade etc. Quer dizer, na visão deles, você é diferente do resto do mundo, mas exatamente igual ao seu companheiro de tribo. De certa forma isso é uma prisão fantasiada de liberdade, uma conformidade disfarçada de rebeldia. Já os outros dois filmes – A Garota da Motocicleta e O Selvagem da Motocicleta – escolheram um caminho diferente, mostrando que cada pessoa pode ser única, autêntica e verdadeiramente livre. A pegadinha é que você tem que estar disposto a pagar por isso. Não é à toa que fizeram menos sucesso.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *