© Coleção Equilíbrio em Duas Rodas (2021)
Livro: Fábricas de Motocicletas
Fábio Magnani
[publicado originalmente em março de 2011]
A Suzuki havia passado os anos de 60 e 61 com um desempenho muito fraco nas pistas. Em 1962 surge com uma moto de dois tempos capaz de ganhar o título mundial de baixas cilindradas. Depois disso tudo é história, com os motores de dois tempos progredindo até o ponto de ganharem todas as competições possíveis. Pelo menos até serem barrados pelo regulamento da MotoGP no início do século XXI. Como um motor de dois tempos pôde ganhar um título? Como a Suzuki conseguiu uma evolução tão rápida?
Para explicar isso, o autor Mat Oxley conta uma história que começa lá na Alemanha em 1919. Naquele ano a recém fundada DKW lançou a sua primeira motocicleta. No mesmo ano nasceu Walter Kaaden. Enquanto a DKW se transformava na maior fabricante de motocicletas do mundo, Kaaden desenvolvia sua paixão pelas motos; primeiro como aprendiz da DKW, depois como estudante de engenharia mecânica. Durante a 2ª Guerra Mundial, o jovem brilhante Kaaden trabalhou no desenvolvimento dos mísseis V1 e do primeiro caça a jato da história, o Me 262. Com o final da guerra, ao contrário de vários companheiros que foram brilhar em outros países, Kaaden preferiu voltar para a sua pequena Zschopau. Mal acabava o terror do nazismo, Kaaden agora vivia sob o julgo do comunismo soviético.
Ao mesmo tempo em que os projetos da DKW iam para os aliados como forma de reparação pelos estragos da guerra, o maquinário da DKW era deslocado para a Rússia por ordem do governo soviético. Mesmo que a DKW não tivesse sido desmembrada como foi pela guerra fria, seus motores de dois tempos estavam fadados ao esquecimento. No início dos anos 50 esses motores pequenos, ineficientes e sujos já pareciam pertencer apenas à história. Os motores de quatro tempos tinham vencido. Dali em diante, com a proibição dos dois tempos turbinados nas competições de velocidade, esses motores primitivos seriam usados apenas em motocicletas de pequeno porte, vendidas para a plebe por fabricantes de segunda linha. Seria assim mesmo?
Kaaden seguiu em sua Alemanha natal, tocando uma empresa de forro de madeira. Como hobby, comprou uma pequena DKW para ajustar e participar de competições locais. Não era um grande piloto, mas a sua moto impressionava pelo desempenho, o que não agradava aos dirigentes comunistas com suas equipes do estado.
Quando os comunistas proibiram completamente as propriedades privadas, Kaaden não aceitou a ordem, continuando a trabalhar em sua empresa de forros. Até que o governo conseguiu assegurar que ele não teria mais fornecimento de matéria-prima. Era o fim do empreendimento de Kaaden. Ao mesmo tempo, o governo decidiu usar o motociclismo como forma de provar o valor do regime comunista. Impressionados pelo desempenho nas competições locais, convidaram Kaaden para dirigir o desenvolvimento de sua nova equipe de motociclismo. A DKW, que tinha tido seu nome mudado para IFA em 1948, passava agora em 1956 a se chamar MZ (Motorradwerk Zschopau, ou Fábrica de Motocicletas de Zschopau).
A MZ de Kaaden quase não tinha dinheiro ou equipamentos. Pior ainda, os motores de dois tempos, como aqueles usados pela antiga DKW, tinham sido condenados pelos engenheiros do mundo. Sem dinheiro e sem tecnologia, parecia não haver esperança. Mas Kaaden tinha inteligência natural, conhecimento da época do desenvolvimento dos mísseis nazistas, perseverança no trabalho, uma paixão avassaladora pelas motocicletas e pilotos de primeira. Entre os seus pilotos estava Ernst Degner, que unia impetuosidade, técnica para pilotar e um profundo conhecimento dos motores de dois tempos. A dupla Kaaden e Degner – como pai e filho, professor e estudante, projetista e executor, engenheiro e piloto – escreveriam o nome da MZ na história do motociclismo.
Uma das grandes diferenças entre os motores de dois tempos e o de quatro tempos é a aparente simplicidade do primeiro. Com poucas peças móveis, os motores de dois tempos são mais baratos e de fácil manutenção. Mas essa mesma simplicidade nas peças fazia com que os motores de dois tempos fossem ineficientes. Kaaden talvez tenha sido o primeiro a perceber que, embora as peças fossem simples, o escoamento dos gases nos motores de dois tempos era complexo. Aqueles motores tinham que ser tratados como instrumentos musicais, onde o som percorre caminhos precisos para compor as músicas. Da mesma forma, os gases no motor de dois tempos tinham que percorrer caminhos determinados para produzirem potência. Kaaden sabia disso porque tinha dominado a dinâmica dos gases durante o desenvolvimento dos mísseis na guerra. A tecnologia nazista, nas mãos de Kaaden, traria os motores de dois tempos de volta ao pódio.
Começa então o desenvolvimento dos motores de dois tempos que iriam dominar as competições mundiais nas últimas quatro décadas do século XX. Com muito trabalho, em 1961 a pequena MZ – do engenheiro Kaaden e do piloto Degner – estava preparada para ganhar o seu primeiro título mundial. Seria apenas uma questão de esperar a glória. Seria?
Na penúltima corrida de 1961, o motor da MZ de Degner quebra. Algumas horas depois ele foge dos comissários comunistas, pedindo asilo político na Alemanha Ocidental. Logo na próxima temporada – em 1962 – Degner aparece como contratado da Suzuki, pilotando uma moto com desempenho muito melhor do que haviam apresentado nos anos anteriores. Alguns até diriam que o motor da Suzuki era quase um motor da MZ…
Bem, esse é só o começo e alguns detalhes da história que Mat Oxley conta no seu livro “Stealing Speed – The Biggest Spy Scandal in Motorcycle History” (Roubando Velocidade – O Maior Escândalo de Espionagem da História da Motocicleta). Não é um livro imparcial. Defende fortemente os motores de dois tempos com injeção direta. O autor não tem papas na língua ao criticar a Suzuki e a Honda. Mas vale a pena para ter uma idéia tanto da história do motociclismo quanto da volta dos motores de dois tempos. Boa leitura.