O Museu Britânico Está Desmoronando

© Coleção Equilíbrio em Duas Rodas (2021)
Livro: Motocicletas de Mármore

O MUSEU BRITÂNICO ESTÁ DESMORONANDO
Fábio Magnani
[publicado originalmente em setembro de 2016]

Ultimamente, um dos assuntos aqui do Equilíbrio em Duas Rodas tem sido os campus novels, que são livros de ficção que falam da vida universitária, em geral usando tom satírico. Tenho uma porção deles na minha biblioteca.

Os mais queridos pelo público são os do David Lodge, principalmente a trilogia formada por ‘Changing Places’ (‘Trocando de Lugar’, 1975), ‘Small World’ (‘Mundo Pequeno’, 1984) e ‘Nice Work’ (‘Trabalho Legal’, 1988). O primeiro conta a história de dois professores, um americano e um britânico, que trocam de universidade bem no fim dos anos 60, retratando assim as diferenças entre as duas culturas acadêmicas e principalmente o impacto da revolução cultural que acontecia na época. O segundo é sobre o turismo acadêmico e a busca pela celebridade acadêmica. O terceiro volta um pouco ao tema do primeiro, no qual uma professora de literatura e um diretor de indústria mecânica acompanham o trabalho um do outro, revelando as diferenças entre o mundo corporativo e o acadêmico.

Outro livro bem popular é ‘The History Man’ (‘O Homem da História’, 1975), do Malcolm Bradbury. Esse livro satiriza um departamento de sociologia, com todos os relativismos e todos os decorrentes imobilismos e egoísmos e infantilismos tão famosos hoje em dia nas universidades e nas redes sociais.

David Lodge (1930) e Malcolm Bradbury (1932) foram contemporâneos e colegas de departamento em Birmingham, no período 1961-65.

Dado esse contexto, há um tempo atrás comecei a procurar os primeiros livros desses autores que tivessem a ver com a vida acadêmica. Primeiro encontrei ‘Eating People is Wrong’ (‘Comer Gente é Errado’, 1959), do Bradbury. Depois encontrei ‘The British Museum is Falling Down’ (‘O Museu Britânico Está Desmoronando’, 1965), do David Lodge.

O meu interesse pelo ‘The British Museum is Falling Down’ se deu pela capa. Inicialmente nem sabia que tinha a ver com a vida acadêmica, mas achei aquela scooter irresistível. Na verdade este não é um campus novel clássico, pois não fala exatamente de professores universitários. O personagem principal (Adam Appleby) é um doutorando, um aspirante à vida acadêmica, que passa os dias estudando na sala de leitura do Museu Britânico.

Essa sala me traz boas lembranças literárias, pois foi ali que o Colin Wilson escreveu um dos meus livros preferidos, ‘The Outsider’ (1956). Praticamente sem dinheiro, ele passava o dia lendo e escrevendo no museu, depois dormia no parque Hampstead Heath.

Voltando ao ‘The British Museum is Falling Down’, os seus temas principais são a vida sexual dos casais católicos e a vida dos doutorandos. O primeiro tema é interessante do ponto de vista histórico porque o livro se passa na época do Concílio Vaticano Segundo, no qual um dos pontos “importantes” era a vida sexual do rebanho. No livro, Adam Appleby (o doutorando), passa o dia todo incomodado porque está desconfiado que a sua mulher está grávida do quarto filho. E eles só têm 25 anos! Esse era um problema eterno para os casais católicos que não podiam (será que podem hoje em dia?) usar métodos contraceptivos. Quer dizer, eles podiam usar a matemática (tabelinha), mas não a química (pílula) e a física (camisinha).

Em um determinado momento, o portão da sala de leitura é comparado a uma vagina, e sua área principal com um útero protetor, representando assim como a vida acadêmica muitas vezes é usada como uma fuga das dificuldades do ‘mundo real lá fora’.

A história toda se passa em um único dia, contando os encontros, pensamentos e percalços de Adam Appleby. Essa é uma clara homenagem a ‘Ulysses’ (James Joyce, 1922). Na verdade, um dos lances legais de ‘The British Museum is Falling Down’ é o pastiche. David Lodge, ao longo do livro, imita o estilo de vários autores, entre eles Graham Greene, Ernest Hemingway, Henry James, Franz Kafka, D. H. Lawrence, C. P. Snow e Virginia Wolf.

Falando um pouco da tal scooter da capa, é com ela que o protagonista se desloca pela neblina de Londres. É uma motinha velha, barulhenta, que não inspira qualquer confiança na hora da partida. É usada para representar as dificuldades que o doutorando tem em sua vida, com uma família para sustentar, sem a certeza de que terá um emprego em uma universidade, com a tese que não sai nunca e com a dificuldade em se concentrar.

Por falar em neblina, David Lodge queria que o título do livro fosse ‘The British Museum Had Lost Its Charm’ (‘O Museu Britânico Tinha Perdido Seu Charme’), que é um verso de ‘A Foggy Day’ (‘Um Dia com Neblina’, 1937), uma música que David Lodge cantarolava durante a escrita do livro. Tudo a ver, pois a música fala de um dia em Londres, da neblina e do Museu Britânico. David Lodge diz que gostava particularmente da versão com a Ella Fitzgerald. Em geral eu adoro a Ella Fiztgerald, mas desta vez a sua versão intimista não casa muito bem com a correria atabalhoada que é o livro. Se eu fosse fazer um filme desse livro, escolheria várias versões dessa música, uma para cada cena. Charles Mingus para o tráfego, com buzinas e apitos, a gravação de Chet Baker para as cenas de correria, e Red Garland para as conversas sociais.

Aconteceu que a gravadora de ‘A Foggy Day’ não cedeu os direitos para usar o verso ‘The British Museum Had Lost Its Charm’ como título do livro, então eles mudaram para o tal ‘The British Museum is Falling Down’, que é bem parecido com o verso principal de uma música infantil super conhecida. Além disso, o título definitivo pode ser visto como uma certa alusão à sexualidade masculina. Se bem que invertida nesse caso, pois certamente Adam Appleby não sofre de impotência, mas sim de um grande apetite sexual.

Por falar nisso, gostei de uma curiosidade do livro. Em um certo momento, o protagonista, ao comentar sobre a beleza da sua mulher, diz que ela é uma calipígia, um termo que eu nunca tinha ouvido falar. Ao procurar na internet, descobri que vem de uma tal Vênus Calipígia, que significa nada mais nada menos que ‘A Vênus das Belas Nádegas’.

Bumbum também é cultura!

Desculpem a fuga do assunto principal. Neste momento, se estivéssemos no velho programa humorístico do Agildo Ribeiro, o Professor Aquiles Arquelau estaria recebendo uma campainhada da múmia paralítica pela digressão, se bem que uma bela digressão.

PIM!

Voltando pela enésima vez ao ‘The British Museum is Falling Down’, logo na abertura do livro, David Lodge já deixa clara a influência que teve do livro ‘Eating People is Wrong’, do seu amigo Malcolm Bradbury. Além de serem livros satíricos sobre a vida universitária, eles têm outras similaridades. Por exemplo, os dois protagonistas circulam em duas rodas (Adam Appleby em uma scooter, Stuart Treece em uma bicicleta motorizada). Outro lance legal é que em ‘Eating People is Wrong’ o título também veio do verso de uma música: ‘The Reluctant Cannibals’ (‘Os Canibais Relutantes’).

Para quem tiver interesse pela mistura de universidades e duas rodas, lembro ainda de dois livros que já comentei no ‘Equilíbrio em Duas Rodas’: Riding with Rilke e Throttling the Bard.

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