Grandes Aventureiros

© Coleção Equilíbrio em Duas Rodas (2021)
Livro: De Motoca na Estrada

GRANDES AVENTUREIROS
Fábio Magnani
[publicado originalmente em maio de 2010]

Na saída da primeira parada depois de Patos de Minas, rumo a Osvaldo Cruz, o Geraldinho deixou a moto tombar quando dava a ré. Nada demais, só o sensor da embreagem que soltou e o desencaixe do protetor de mão. Mas já serviu para que todos, imediatamente, fizessem sua parte para resolver o problema. Rapidamente desfizemos a bagagem para tirar as ferramentas e o Wagner corrigiu os desajustes. Um pouco depois, enquanto conversávamos sobre o assunto, apareceu um motociclista para conversar com a gente. Mesmo vestindo uma capa de chuva e sacos plásticos amarrados nos pés, o cara estava molhado que nem um pinto. Mas feliz da vida. Estava indo com a sua CG 125 de Minas para a Bahia, em uma viagem de mais de 1.000 km para passar o Ano Novo com sua noiva. Ele tinha trocado a coroa da moto, na esperança de que ela corresse mais. Mas aconteceu exatamente o contrário, pois ele não conseguia passar de 60 km/h. Mas mesmo assim, continuava feliz. Sorrindo o tempo todo, contou a sua história e pegou a estrada para continuar a viagem.

Esperávamos que o primeiro trecho na Argentina, entre Puerto Iguazu e Corrientes, seria sem maiores imprevistos. No começo da estrada tudo era lindo, com grandes campos salpicados de árvores. Os argentinos nos postos nos tratavam super bem, mostrando muita paciência para entender o que dizíamos ou explicar como se falava em espanhol alguma coisa. Só que o calor foi aumentando, aumentando. Minha moto não se deu bem com a gasolina sem álcool da argentina, o que fez o consumo aumentar muito. Quando passamos em Posadas, com o tanque na metade, resolvemos andar mais uns 50 km antes de fazer novo reabastecimento. Mas cadê posto? Nada. Paramos na estrada para olhar no mapa, que mostrava que teríamos um posto na cidade de Ituzaingó. Beleza. Mas, chegando na cidadezinha – a única em um raio de 100 km – , havia falta completa de combustível. Ninguém sabia explicar porque. Mas o fato é que ficamos a tarde toda, até o começo da noite, parados no posto esperando combustível. Foi um dos dias mais legais da viagem. Conhecemos um ecosocialista argentino, um casal de motociclistas gaúchos, todos os frentistas e um casal novinho que viajava por ali. Este casal de argentinos andava em uma moto de 100cc, com uma bagagem imensa – mais alta que a garupa – e uma cachorrinha, a Nina. A Renata passou um bom tempo conversando com eles. Quando a gasolina chegou, com o sol já tendo ido embora, nós fomos procurar um hotel para dormir. O casal com o cachorrinho, ao contrário, encheu o tanque e se mandou estrada afora. Êita energia!

Quando estávamos voltando para o Brasil, passando pela mesma estrada de Corrientes para Foz do Iguaçu, estávamos parados em um posto quando apareceu um cara todo envergonhado perguntando se podia tirar uma foto das nossas motos. Quando vimos, ele fazia parte de um grupo de 4 motociclistas argentinos, todos com motos abaixo de 125cc. Voltavam de Foz do Iguaçu, rumando para Córdoba, em uma viagem de 1.600 km. As motos iam cheias de capacetes novos, tênis, camisetas e eletrônicos. Engraçado como eles achavam que não tinham o direito de se verem como grandes aventureiros, porque nós é que estávamos com as motos grandes. No final, todos nós chegamos ao acordo, em um portunhol muito feio, que não importa o tamanho da moto, mas sim a força do espírito. Mas, lá no fundo, continuo achando que a aventura deles nessas motos pequenas é muito mais desafiadora do que a nossa. Ponto.

Além desses grandes motociclistas aventureiros em suas motos compactas, claro que também encontramos um monte de motoqueiros com motos de grande cilindrada mas com espírito de amizade quase nulo. Vários deles, vestidos com roupa de grife, nem olhavam para o lado para cumprimentar. Às vezes até viravam a cara. Infelizmente foram muitos, principalmente brasileiros. Não vale muito a pena falar sobre eles. Principalmente porque não tenho nenhum direito a isso, já que cada um saúda quem quiser.

Para quem não é do ramo de motos, existe uma mania – que eu não gosto nada nada nada -, de diferenciar motoqueiros de motociclistas. A idéia é que motociclistas gostam de aventuras e amizade, enquanto os motoqueiros são irresponsáveis e egoístas.  O ruim é que esse uso de palavras para rotular as pessoas – como sempre – acaba sendo usado de forma preconceituosa. Mas, pior ainda, muita gente acaba usando os termos para separar as pessoas pelo tamanho das motos que pilotam. Por isso a intenção proposital, neste texto, de chamar os aventureiros de motos compactas de motociclistas, enquanto os egoístas narcisistas com suas motos de grande porte são carimbados como motoqueiros.

Mas ainda bem que há exceções. Uns dos melhores amigos que encontramos na viagem foi o casal Oscar e Victoria, que pilotava uma Gold Wing pelas ruas de Valparaíso. Essa moto tem 1800cc. Nem tudo está perdido!

Assinado, Fábio Magnani, motoqueiro. Motoqueiro como os milhões de motoqueiros que vivem suas vidas – todos os dias –  nas ruas e estradas espalhadas pelo mundo, tendo como companhia suas grandes motos pequenas e sempre com espírito de aventura, amizade e um sorriso fácil no rosto.

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Apresentação. A Viagem ao Atacama foi realizada em torno de janeiro de 2010. Durante 38 dias, quatro amigos – Fábio, Renata, Wagner e Geraldinho – percorreram cerca de 15.000 km em suas motos. Com saída e chegada em Pernambuco, passaram por grande parte do Brasil e conheceram a Argentina e o Chile. A história toda começa em meados de 2008 – lá no início da preparação -, mas não tem tempo para acabar, pois os reflexos continuam aparecendo a cada dia que passa. Planejamento, amizade, trabalho em time, resolução de conflitos, natureza, estrada, crescimento pessoal, aprendizado e amor pelas motocicletas. A viagem é contada em três grandes séries: Planejamento (textos escritos antes da partida), Diário da Viagem (relatos publicados durante a viagem) e Crônicas do Atacama (pós-escritos, da qual faz parte este texto). Nunca é demais dizer que esta seção não tem fim programado. Se gostar, volte de vez em quando para ver as novidades.

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