Férias no Paraíso

© Coleção Equilíbrio em Duas Rodas (2021)
Livro: De Motoca na Estrada

FÉRIAS NO PARAÍSO
Fábio Magnani
[publicado originalmente em junho de 2010]

Acordamos sem despertador no chic hotel de Los Andes, nossa primeira parada no Chile. O café da manhã por lá era bem sofisticado, mas em quantidade bem menor do que estamos acostumados nos hotéis brasileiros. Para quem vai viajar de moto, sempre é importante comer bem de manhã, porque não se sabe quando se encontrará comida razoável durante o dia.

A descida da Cordilheira dos Andes, no dia anterior, em uma noite muito escura e em uma estrada cheia de obras, não nos tinha permitido ter uma visão do Chile. Mas pela manhã, na saída para Valparaíso, o sol iluminava o mundo inteiro. A vegetação por ali já era um pouco árida – como que nos preparando para o Atacama -, com alguma vegetação, mas que não cobria totalmente o solo cor de areia. Todas as estradas eram muito limpas, sinalizadas e organizadas.

Como eu tinha escutado muito sobre o extremo rigor dos policiais e do estrito respeito às regras pelos chilenos, tratamos de andar bem certinho neste primeiro dia.

Andar de moto pelo Chile era de uma satisfação sem tamanho, pois mais um dos meus objetivos tinha sido alcançado. Penso que se alguma coisa acontecesse por ali, me impedindo de continuar a viagem, já teria ficado muito satisfeito.

O caminho de Los Andes a Valparaíso é curto, um pouco mais de 100 km. Chegamos ainda pela manhã, com bastante tempo para procurar algum hotel.

Assim que se chega à costa do Pacífico, você precisa decidir se vai para a esquerda – Valparaíso – ou para a direita – Viña del Mar. Como Valpaíso é descrita como uma cidade antiga, com forte tradição portuária e cosmopolita, nunca tive dúvida alguma de que seria nosso destino. Na realidade, Valparaíso sempre me atraiu bem mais do que Santiago.

Ao virar para a esquerda, a avenida vai costeando o Pacífico. Foi uma sensação de arrepiar, daquelas que até hoje – enquanto escrevo – posso sentir novamente pelo simples fato de pensar naquele momento. Rodamos um pouco pela cidade até encontrar um hotel razoável. Em geral, nos preocupamos mais com a higiene e o preço dos hotéis, pois não aproveitamos quase nada chegando no final da noite e saindo de madrugada. Mas, como desta vez iríamos passar três dias na cidade, resolvemos que valia a pena um pouco mais de conforto.

Deixamos as motos paradas no meio de um entroncamento enquanto a Renata negociava o preço do hotel. Chegaram então o Oscar e a Victória, um casal chileno de motociclistas que nos ofereceu um passeio pela cidade mais tarde. Coisa que aceitamos sem piscar os olhos.  A cidade de Valparaíso é dividida em duas: plano e cerros. No plano fica o porto, o centro comercial e alguns hotéis. Nos cerros ficam os restaurantes e as casas antigas. Nos encontramos no final da tarde na casa de Oscar e Victória, que fica no cerro. Um lar muito simpático, praticamente um templo aos viajantes de moto. Conversamos muito sobre a viagem que faríamos, onde havia gasolina e hotéis para parar. Mas, o mais legal é que vimos que a alegria de viajar de moto é exatamente a mesma, independente do país de origem do motociclista. Depois nos guiaram, em sua imensa Gold Wing, para vários visuais impressionantes lá da parte de cima.

Eu e a Renata gastamos os outros dois dias passeando por toda a cidade, que é cheia de bares antigos – como o secular bar de marinheiros Cinzano -, prédios históricos, casas coloridas e ruas tortuosas. Para ir aos cerros, é só pegar um dos vários ascensores. Aproveitamos também para nos curtir, pois a Renata iria voltar para o Brasil logo depois. Tínhamos combinado que esses últimos dias seriam como pequenas férias dentro da Viagem ao Atacama. Para nossa sorte, tínhamos acertado em cheio o nosso tipo de cidade.

Gostamos tanto de passar aqueles dias por ali que acabamos desistindo de dois passeios que havíamos pensado em fazer, que eram conhecer Santiago e o Cerro La Campana, que havia sido visitado pelo próprio Charles Darwin. Segundo o guia turístico, lá de cima de La Campana é possível ver o Pacífico de um lado e o Aconcágua de outro. Fica para a próxima.

O fato é que o caos criativo de Valparaíso era muito mais fascinante. As pessoas nos paravam na rua para falar sobre o Brasil, os ônibus antigos enchiam nossos olhos de nostalgia e as casas coloridas, nos mirando lá de cima, davam a impressão exata de como deve ser a morada no paraíso. Não é uma cidade limpinha e estéril, muito pelo contrário, Valparaíso tem vida.

O Dakar estava passando por aquela região naqueles dias, mas preferimos não perder tempo com isso. Teria sido legal se tivéssemos mais tempo para conversar com os pilotos ou ver uma parte da prova. Agora, gastar um dia inteiro de deslocamento só para poder falar que tínhamos ido, daí não valia a pena.

Eu insisti em tomar um banho no Pacífico, o que foi muito marcante pois saí quase um picolé. Deveria ter percebido isso quando vi que todos só ficavam tomando banho de sol na praia, sem se molharem. Mas, no final das contas, teria entrado de qualquer jeito. Há certas coisas que você tem que fazer nesta vida e pronto.

No último dia, pela manhã, fui levar a Renata até Santiago, de onde voltaria para o Brasil para ficar como nosso bebê de 5 meses. Por um lado fiquei triste porque ela não poderia aproveitar o resto da viagem. Mas tenho a certeza que para ela reencontrar o nosso bebê era bem mais legal. Afinal, ela já tinha feito até ali uma grande viagem de moto do Brasil até o Chile, de mais de 3.000 km e agora curtiria o nosso bebê no resto das férias. Para compensar mais ainda, ela disse que o vôo por cima dos Andes é coisa completamente diferente do que passar de moto, uma experiência que ficaria gravada na mente dela para sempre.

Deixando a Renata em Santiago, voltei para Valparaíso para encontrar o Geraldinho e o Wagner. Praticamente não os tinha visto nos últimos três dias.

Em nosso balanço, estávamos 19 dias na estrada, tínhamos cruzado todo o Brasil e toda a Argentina, em uma viagem de 6.500 km. Este era o ponto mais ao sul de nossa viagem. Agora era mudar a direção, rumo ao norte, e seguir para o nosso grande objetivo: Atacama.

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Apresentação. A Viagem ao Atacama foi realizada em torno de janeiro de 2010. Durante 38 dias, quatro amigos – Fábio, Renata, Wagner e Geraldinho – percorreram cerca de 15.000 km em suas motos. Com saída e chegada em Pernambuco, passaram por grande parte do Brasil e conheceram a Argentina e o Chile. A história toda começa em meados de 2008 – lá no início da preparação -, mas não tem tempo para acabar, pois os reflexos continuam aparecendo a cada dia que passa. Planejamento, amizade, trabalho em time, resolução de conflitos, natureza, estrada, crescimento pessoal, aprendizado e amor pelas motocicletas. A viagem é contada em três grandes séries: Planejamento (textos escritos antes da partida), Diário da Viagem (relatos publicados durante a viagem) e Crônicas do Atacama (pós-escritos, da qual faz parte este texto). Nunca é demais dizer que esta seção não tem fim programado. Se gostar, volte de vez em quando para ver as novidades.

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