© Coleção Equilíbrio em Duas Rodas (2021)
Livro: Má-Criações em Duas Rodas
Fábio Magnani
[publicado originalmente em setembro de 2009]
Para algumas pessoas existem dois tipos de ficção nos livros: ficção literária e ficção de fórmula. A primeira tenta mostrar o mundo como é, através da complexidade dos personagens e vicissitudes da vida. Já a segunda, de fórmula, tem como principal objetivo o entretenimento através do escapismo. Quem lê a literatura de fórmula já sabe o que vai encontrar, quais são as regras daquele universo. Por mais violentas que sejam as ações de um livro de faroeste, por exemplo, não causam a mesma impressão que um drama realista. O leitor vê os assassinatos como parte de um universo à parte – ao qual vai para se divertir -, sem nenhuma relação com a violência do mundo real. Isso é engraçado, porque por mais que o universo da literatura de fórmula seja violento, é ali que o leitor se sente seguro. Se sente seguro porque tudo já é previsto. Mas, acima de tudo, a literatura traz para o leitor a solução de todos os conflitos. O mocinho pode morrer ou ficar rico no final, mas sempre há um final definitivo. Na vida real, ou na ficção de literatura, nada é definitivo, nada é claro.
Por exemplo, a brincadeira que eu fiz no Motoqueiro do Sertão foi na forma de ficção de fórmula. Uma aventura violenta, onde as mortes, escapes e paixões pipocam como se fossem a coisa mais natural do mundo. No final, o mocinho encontra o seu real destino, o juiz bandido é morto e a mocinha encontra o seu amor. Pronto, um final definitivo. Se a mesma história fosse contada na forma de ficção literária, tudo seria muito diferente. Toda desesperança de Jessé, por mais insignificante que fosse para a aventura, teria proporções imensas. Porque na vida real, o abandono e a falta de esperança podem ser muito mais trágicas que a violência física. Sem contar o medo que ele teria ao ser perseguido pela polícia como um animal.
Na primeira metade do século XX, nos Estados Unidos, havia um tipo de revista chamada de Pulp Fiction. A palavra pulp (que vem de polpa, de madeira) vem do tipo de material usado para o papel das páginas baratas da revista. Essas folhas, mais as histórias escritas a baixíssimo custo – devido ao uso sempre das mesmas fórmulas -, fizeram essas revistas extremamente populares. O único luxo estava nas capas, que sempre traziam lindas beldades em situações perigosas. Alguns dos personagens inesquecíveis dessas aventuras eram O Sombra, Doc Savage, Fantasma, Buck Rogers, Flash Gordon e Zorro. Isso sem contar os incontáveis westerns e detetives noir.
Depois da década de 50, os Pulp Fiction diminuiram sua imensa popularidade. Com o final da recessão nos Estados Unidos, as pessoas podiam comprar revistas um pouco mais caras. Além disso, não precisavam mais tanto escapar da realidade. Mas mesmo assim alguns tipos de história continuaram bastante tempo no mercado, como a ficção científica, os livros de espiões internacionais e os melosos romances para meninas adolescentes.
Nos últimos tempos, vários filmes fizeram homenagens àquela literatura de fórmula publicada nos Pulp Fiction. Sempre com personagens superficiais, com personalidade forte, mulheres fatais, muita ação e aventura. Entre esses filmes estão Indiana Jones, O Troco – segunda adaptação do livro “The Hunter”, de Donald E. Westlake – e o próprio Pulp Fiction, de Quentin Tarantino.
No cinema, sem dúvida nenhuma, eu prefiro essas fórmulas prontas de aventura. Para mim cinema é escapismo sim. E ponto final. Já na literatura, fico no meio termo. Gosto de literatura séria e de fórmula. Há espaço para as duas, sem qualquer conflito.
Para finalizar, deixa eu fazer uma brincadeira, mostrando como ficaria a mesma história do Motoqueiro do Sertão, mas agora usando outras fórmulas.
Aventura. Na aventura, o foco principal são os desafios que o protagonista enfrenta para alcançar o seu objetivo. Neste caso, Jessé, com a vida destruída e sem esperança, enfrentou a polícia e a traição para encontrar a sua real missão. Mesmo que não tenha ganhado nenhum dinheiro, no final ficou com uma vida nova como prêmio.
Mistério. Se a história fosse de mistério, não daríamos tanta atenção para Jessé. O negócio seria o processo de descoberta de como o juiz armou o golpe para incriminá-lo. Como fizeram para não deixarem pistas. Durante a história, um detetive descobriria todo o estratagema.
Romance. Já se fosse um romance (argh!), estaríamos interessados em como foi o encontro de Jessé e Thaís. Mesmo com vários problemas amorosos anteriores, a paixão dos dois teria suplantado todas as dificuldades da história. No final, Thaís abdicaria de sua vida social estável, unindo-se ao seu amante criminoso. Já Jessé arriscaria voltar ao local do crime de tempos em tempos para rever a sua mulher.
Melodrama. No melodrama, que é parecido com uma novela, o que vale é a relação social entre os personagens. Aqui contaríamos a história da cidade, suas traições, seus romances e suas expectativas, descrevendo como a corrupção reinava à solta. No final, o papel de Jessé, neste tipo de história, seria renovar as relações sociais, eliminando parte da corrupção e restaurando a ordem.
Eu particularmente acho os mistérios um pouco chatos, com uma visão muito forte na trama e pequena nos personagens. Melodramas e romances são coisas de novela. O negócio é mesmo a aventura, cheia de perseguições, diálogos marcantes, conflitos e dificuldades. Normalmente o personagem principal pode ser visto como um Cavaleiro Solitário, ou ainda um Cavaleiro da Távola Redonda em busca do Graal.
Durante os conflitos, o protagonista vai definindo a sua missão na vida, a sua identidade, seu código de honra e os seus valores. A cada passo supera novos obstáculos. É sempre a mesma fórmula. Parafraseando Renato Russo: sei que essas histórias de que gosto são meio repetidas, mas quais são as histórias que nunca são ditas?